stark major

5.9.05

 

uma questão de orientação

hesitei muito antes da publicação do post anterior. pelos comentários em off que tenho recebido, os frequentadores desta chafarica nem sempre atentam ao lado profundamente paródico de quase tudo - ou tudo - o que escrevo por aqui.

(a paródia pode ser triste. a paródia pode ser trágica.)

ainda assim, jamais imaginei que este post causasse tanta celeuma entre os meus leitores. admito que essa hipótese me ocorreu, mas nunca que o motivo fosse (e aqui engulo em seco) a minha orientação política. foi ao longo do dia de hoje que percebi como o coming out político pode ser tão traumático como o coming out sexual. daqui aos meus exercícios de efabulação foi um saltinho. imaginei então que, num universo paralelo a este, o meu duplo (a que chamaremos, por conveniência do post, «dinis») poderá ter sofrido na pele um processo similar ao do autor deste blog, ainda que por motivações radicalmente diferentes.

(é fascinante como a sexualidade pode estar tão próxima da política.)

dada a actual tecnologia ao nosso dispor (we're waiting for you, mr hawking), não nos foi possível averiguar da veracidade desta efabulação. contudo, resolvemos deixar aqui registada uma breve reconstrução do evento, certos de que estará próxima do trauma vivido por esse nosso duplo desconhecido.

(para que possa proceder à comparação dos dois processos, mantivemos o coming out sexual hipoteticamente vivido pelo autor deste blog, sob a forma rasurada.)

dinis entra na sala. os pais sentados no sofá, olhando o vazio. na mesa ao centro, um conjunto de exemplares da g magazine spectator.

mãe. (indignada) queres explicar-nos isto?

dinis. (engolindo em seco) tentei dizer-vos. acreditem.

pai. (um pouco nervoso e exaltado) falar-nos do quê? da pouca-vergonha?

dinis. (sentando-se no sofá da sala) ... a razão pela qual nunca me viram com namoradas bloquistas.

mãe. (voz lacrimejante) sê claro. di-lo de uma vez.

dinis. (já emocionado) não é fácil. tentei deixar-vos algumas pistas. deixei de limpar o histórico do computador, esperando que chegassem ao sítio do bel ami acidental. mas acho que fizeram sempre de conta, sem nunca perceberem as minhas pistas. porque acham que eu brincava com bonecas soldadinhos americanos quando era criança?

mãe. sempre acreditei que isso pudesse ser uma fase. que um bom psicólogo o teu avô comunista pudesse alterar as coisas...

dinis. (levantando-se do sofá) quais coisas, mãe? não percebes. (silêncio sepulcral) não percebes mesmo. (novo silêncio, mais pesado) sou gay de direita.

o pai baixa o olhar, a mãe encosta a face aos ombros do marido.

pai. (sem nunca olhar para o filho) e o que virá a seguir? tu no trumps s. luís a assistir a espectáculos de travestis às noites à direita? o meu filho vestido com plumas e lantejoulas fatos gucci e prada, apelidado de débora vanessa sir dinis, a entoar gloria gaynor poesia do facho do eliot? livra-te de te ver nesses preparos. filho meu não frequenta locais debochados aristocráticos. vais ao consultório do teu psicólogo para casa do teu avô e hás-de gostar de mulheres marx e engels.

dinis começa a caminhar em direcção à porta de saída, em passo sôfrego. pára subitamente. vira-se e diz:

dinis. vou dormir a casa do meu namorado companheiro de partido, na buraca lapa. espero que reconsideres essas palavras. quando o fizeres, estarei aqui.

dinis sai de cena. mãe e pai abraçam-se, em estado de choque.

disclaimer: a situação supradescrita não corresponde, no todo ou em parte, a qualquer experiência vivida pelo autor do presente blog. qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Comentários:
Com a verdade me enganas, certo?
 
erm. não, nikita. o disclaimer é real. comigo não ocorreu nada de semelhante. ainda que haja alguns pontos directamente inspirados na minha experiência.
 
LOL!!

Muito bom o texto! :D

Mas creio que há uma diferença essencial entre aceitação e convite. Tu (may I call you tu?) no post de baixo expuseste o que aparenta ser um convite, ou uma declaração de intenções - que procuras alguém para não sei quê ou não sei que mais. E isso é diferente de as pessoas "aceitarem" que sejas de direita (ou tendencialmente, whatever).

Independentemente do que acho sobre esquerda e direita, hás-de convir que existe muito mais conotação com falta de inteligência do ponto de vista de uma pessoa num pólo político em relação a quem se encontra no pólo político oposto. Em relação à sexualidade é algo muito mais emocional, algo que passa mais pelo nojo e sentido de alienação. Obviamente, na política também é emocional/irracional, mas assim são as pessoas.

E ser de esquerda ou de direita não é algo arbitrário "que podia acontecer" a qualquer um (como se fosse uma doença, lol :P). A maneira de se encarar os assuntos nota-se a todos os níveis (por subtil que a diferença possa por vezes parecer) do raciocínio objectivo e intuitivo. É uma fonte de conflito muito grande numa relação, especialmente se um ou mais dos intervenientes nessa relação (é uma comuna do amor, baby, comuna do amor..) for perspicaz e/ou sensível a essas diferenças.

abraço ;)
 
Kurtz:

sublinho a marcador fluorescente um passo do post:

«os frequentadores desta chafarica nem sempre atentam ao lado profundamente paródico de quase tudo - ou tudo - o que escrevo por aqui. (a paródia pode ser triste. a paródia pode ser trágica.)»

o post do classificado era uma paródia (triste). e é claro que existe uma diferença entre a forma como lidamos com a sexualidade e a política. mas, como tu próprio reconheces, talvez a diferença não seja assim tão grande.

erm. tenho de postar um disclaimer válido para todo o blog. qualquer coisa como «não levem este blog muito a sério.» quando digo que isto é o meu parque de diversões, I do mean it. assim sendo, beware: eu não concordo necessariamente com tudo o que escrevo por aqui. vê os posts mais antigos (e uma confissão sob a forma de foto) para perceberes o que quero dizer.

ah! e volta sempre, meu caro Kurtz. :o)
 
Não há mistério.
 
Adorei esta 'chalaça'! Parabéns pelo blog.
 
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