hesitei muito antes da publicação do
post anterior. pelos comentários em
off que tenho recebido, os frequentadores desta chafarica nem sempre atentam ao lado profundamente paródico de quase tudo - ou tudo - o que escrevo por aqui.
(a paródia pode ser triste. a paródia pode ser trágica.)
ainda assim, jamais imaginei que
este post causasse tanta celeuma entre os meus leitores. admito que essa hipótese me ocorreu, mas nunca que o motivo fosse (e aqui engulo em seco) a minha orientação política. foi ao longo do dia de hoje que percebi como o
coming out político pode ser tão traumático como o
coming out sexual. daqui aos meus exercícios de efabulação foi um saltinho. imaginei então que, num universo paralelo a este, o meu duplo (a que chamaremos, por conveniência do
post, «dinis») poderá ter sofrido na pele um processo similar ao do autor deste
blog, ainda que por motivações radicalmente diferentes.
(é fascinante como a sexualidade pode estar tão próxima da política.)
dada a actual tecnologia ao nosso dispor (
we're waiting for you, mr hawking), não nos foi possível averiguar da veracidade desta efabulação. contudo, resolvemos deixar aqui registada uma breve reconstrução do evento, certos de que estará próxima do trauma vivido por esse nosso duplo desconhecido.
(para que possa proceder à comparação dos dois processos, mantivemos o coming out sexual hipoteticamente vivido pelo autor deste blog, sob a forma rasurada.)dinis entra na sala. os pais sentados no sofá, olhando o vazio. na mesa ao centro, um conjunto de exemplares da g magazine
spectator
.mãe. (indignada) queres explicar-nos isto?
dinis. (engolindo em seco) tentei dizer-vos. acreditem.
pai. (um pouco nervoso e exaltado) falar-nos do quê? da pouca-vergonha?
dinis. (sentando-se no sofá da sala) ... a razão pela qual nunca me viram com
namoradas bloquistas.
mãe. (voz lacrimejante) sê claro. di-lo de uma vez.
dinis. (já emocionado) não é fácil. tentei deixar-vos algumas pistas. deixei de limpar o histórico do computador, esperando que chegassem ao sítio do
bel ami acidental. mas acho que fizeram sempre de conta, sem nunca perceberem as minhas pistas. porque acham que eu brincava com
bonecas soldadinhos americanos quando era criança?
mãe. sempre acreditei que isso pudesse ser uma fase. que
um bom psicólogo o teu avô comunista pudesse alterar as coisas...
dinis. (levantando-se do sofá) quais coisas, mãe? não percebes.
(silêncio sepulcral) não percebes mesmo.
(novo silêncio, mais pesado) sou
gay de direita.
o pai baixa o olhar, a mãe encosta a face aos ombros do marido.pai. (sem nunca olhar para o filho) e o que virá a seguir? tu no
trumps s. luís a assistir
a espectáculos de travestis às
noites à direita? o meu filho vestido com
plumas e lantejoulas fatos gucci e prada, apelidado de
débora vanessa sir dinis, a entoar
gloria gaynor poesia do facho do eliot? livra-te de te ver nesses preparos. filho meu não frequenta locais
debochados aristocráticos. vais
ao consultório do teu psicólogo para casa do teu avô e hás-de gostar de
mulheres marx e engels.
dinis começa a caminhar em direcção à porta de saída, em passo sôfrego. pára subitamente. vira-se e diz:dinis. vou dormir a casa do
meu namorado companheiro de partido, na
buraca lapa. espero que reconsideres essas palavras. quando o fizeres, estarei aqui.
dinis sai de cena. mãe e pai abraçam-se, em estado de choque.disclaimer: a situação supradescrita não corresponde, no todo ou em parte, a qualquer experiência vivida pelo autor do presente blog. qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.