stark major

22.9.05

 

(rascunhado num caderno de estuque durante uma vigília nocturna)


o sol não girava, não. em caso de dúvida ou esquecimento, apontara no caderninho de notas esse evento de suma importância: «a era dos milagres terminou em mil novecentos e dezassete». com o advento da lâmpada eléctrica, deveria ter acrescentado. esse lapso tornava-se agora claro, tão claro como a parede branca do quarto - nunca ocupada, sempre ocupado - ao perceber que aí entrara - quem? não sabia. mas entrara alguém, em passada lenta de melodrama, que agora o perscrutava, a si mesmo e à sua sombra. estacara à entrada do quarto, com o olhar hesitando entre ele e a figura pregada à parede, e dissera em tom sibilino:

- donde tardaste tanto, que a este caminho vim a olhos longos por vós? *

(quem? ele próprio? a quem? não à sombra. entrara alguém.)

não se ouviram uivos de assombro, os ahs! prostrados da multidão de crentes. não porque a era dos milagres tivesse terminado em mil novecentos e dezassete, mas porque a lâmpada eléctrica, atenta à cena e na ausência da azinheira, se esquecera de girar.




* palavras de Arima a Avalor (in Menina e Moça ou Saudades de Bernardim Ribeiro).

Comentários:
Ah! que saudades da 'menina e moça'! ou do tempo em que a li e reli...!
O texto é lindíssimo ( e a foto também).
o teu lapso e o da lâmpada que 'se esquecera de girar' estão de facto muito bem enquadrados...
quem diria que naquele jantar do deslizo eu iria conhecer quem tão bem escreve!:)
 
Então, rapaz! comentei mal o teu texto ou não te apetece escrevre mais nada??? Vá lá, se eu estou errada, diz-me.:)
 
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