o sol não girava, não. em caso de dúvida ou esquecimento, apontara no caderninho de notas esse evento de suma importância: «a era dos milagres terminou em mil novecentos e dezassete». com o advento da lâmpada eléctrica, deveria ter acrescentado. esse lapso tornava-se agora claro, tão claro como a parede branca do quarto - nunca ocupada, sempre ocupado - ao perceber que aí entrara - quem? não sabia. mas entrara alguém, em passada lenta de melodrama, que agora o perscrutava, a si mesmo e à sua sombra. estacara à entrada do quarto, com o olhar hesitando entre ele e a figura pregada à parede, e dissera em tom sibilino:
- donde tardaste tanto, que a este caminho vim a olhos longos por vós?
*(quem? ele próprio? a quem? não à sombra. entrara alguém.)
não se ouviram uivos de assombro, os ahs! prostrados da multidão de crentes. não porque a era dos milagres tivesse terminado em mil novecentos e dezassete, mas porque a lâmpada eléctrica, atenta à cena e na ausência da azinheira, se esquecera de girar.
* palavras de Arima a Avalor (in Menina e Moça ou Saudades de Bernardim Ribeiro).