stark major

11.9.05

 

oitava declinação

d. praticava a religião dos amores impossíveis. por cada rapaz que atravessava a sua vida construía um futuro a prazo - e aí depositava os seus afectos e carências sofregamente e de uma só vez. se, de início, as taxas de juro pareciam baixas, a verdade é que nunca via o retorno e d. acabava por hipotecar sempre uma parte da sua sanidade mental. seguiam-se a depressão, os estados de alma em modo montanha-russa, uma espécie de afastamento que dizia «benéfico» (para quem?) e o regresso ao nosso mundo. daí a uns meses, um novo ídolo a adorar, uma nova conversão, um novo amor impossível. ad aeternum.

sei-o porque mo contaram, com detalhes sórdidos dos deuses adorados por d. e das suas falências afectivas. mas só o conheci anos mais tarde, num encontro de amigos. na altura era já um apóstolo das impressões duradouras. d. tinha uma capacidade espantosa de se agarrar a instantes que duravam uma eternidade e de os deitar ao lixo quando esse absoluto se tinha esgotado. era capaz de encontrar o graal numa lata vazia, helena de tróia (páris?) numa stripper, ainda que tal acto o obrigasse a conduzir a sua vida amorosa em permanente sobressalto. assim vivia, de instante em instante, de princípio em princípio. mas meios, nem vê-los. d. tornara-se num agnóstico à procura da fé perdida.

d. telefonou-me esta madrugada. pernoitava numa pensão em évora, depois de uma reunião de trabalho se ter prolongado noite dentro. resolvera ligar-me quando, depois de tentar enxotar a insónia do quarto, continuava a rever em loop uma troca de olhares que havia tido, nessa tarde, ao atravessar a praça do giraldo.

de tão ensonado, não me recordo de toda a conversa, nem sequer dos detalhes do fósforo que d. resolvera acender desta vez. (era este o nome que dávamos aos instantes do d.: fósforos. na secreta esperança que se transformasse, um dia, num pirómano.) mas gravei com precisão o seu sorriso (como se o visse, do outro lado da linha, a cento e cinquenta quilómetros de distância) e uma frase lapidar:

- sei que não é o início de nada. é apenas o início do início.

(perdão. o «apenas» foi da minha lavra. d. nunca o pronunciou.)

e desligou.

Comentários:
lol!

gostei da adenda final entre parêntesis.
 
Muito gosto eu de ler o que tu escreves!:)
também apreciei muito a tua relação com d., cuja profundidade é tão subtil que mal se dá por ela...(isto se eu percebi alguma coisa).
histórias como as de d. escrevi eu muitas ao longo da minha vida profissional, mas duvido que o faça tão bem como tu.
 
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