Havia muito que Julie [Karáguin] esperava o pedido de casamento do seu adorador melancólico e estava pronta a aceitá-lo. Porém, da parte de Boris, um secreto sentimento de repulsa por ela, pelo seu desejo ávido de se casar, pelos seus modos artificiais, e também o pavor que o dominava por prescindir da possibilidade de um verdadeiro amor, ainda o faziam hesitar. O seu tempo de férias expirava. Passava o dia, de manhã à noite, em casa dos Karáguin, e todos os dias, depois de pensar muito, dizia a si mesmo que no dia seguinte faria o pedido de casamento. No entanto, ao pé de Julie, olhando-lhe para a cara vermelhusca e para o queixo quase sempre coberto de pó-de-arroz, para os olhos húmidos e para aquela sua expressão permanente de quem está pronta a passar imediatamente da melancolia para o enleio pouco natural da felicidade nupcial, Boris não conseguia pronunciar a palavra decisiva, apesar de já se considerar há muito tempo proprietário das herdades de Penza e de Níjni Nóvgorod [dote de Julie] e se imaginar a gerir os rendimentos que elas davam. Julie via a hesitação de Boris e chegava a passar-lhe pela cabeça que ele lhe tinha repugnância; mas logo a vaidade feminina lhe sugeria uma consolação: Boris estava tímido precisamente porque a amava. A sua melancolia, porém, começava a transformar-se em irritação e, pouco antes do dia da partida de Boris, Julie pôs em execução um plano decisivo. Na altura em que as férias de Boris chegavam ao fim, apareceu em Moscovo e, obviamente, em casa dos Karáguin, o jovem Anatole Kuráguin; Julie, esquecendo subitamente a melancolia, tornou-se muito animada e atenciosa para com Kuráguin.
[...].
A ideia de ter ficado com cara de parvo e de ter perdido em vão todo aquele mês de serviço melancólico junto de Julie, e também a ideia de ver passar para as mãos de outro - sobretudo para as mãos do imbecil do Anatole - todos os rendimentos das herdades de Penza que na sua imaginação já estavam distribuídos e já eram utilizados, ofendia Boris. Foi a casa dos Karáguin com o firme propósito de fazer o pedido de casamento. Julie recebeu-o com um ar alegre e despreocupado, contando-lhe como se divertira no baile da véspera e perguntando-lhe quando partia. Apesar de Boris estar ali com a intenção de falar do seu amor e, por isso, achar que devia ser meigo, pôs-se a dissertar, irritadamente, sobre a inconstância feminina: que as mulheres passam com facilidade da tristeza à alegria e que os seus estados de humor dependem tão-só do tipo de homem que as está a galantear. Julie sentiu-se ofendida e replicou que era verdade que a mulher precisava de variar, que qualquer uma se aborrecia quando era sempre a mesma coisa.
- Para isso, poderia aconselhar-lhe... - começou Boris, com o desejo de a alfinetar, mas, no mesmo instante, veio-lhe à cabeça a insultuosa ideia de que se arrisca a partir de Moscovo sem ter conseguido o seu objectivo, perdendo em vão o seu tempo e esforços (o que nunca lhe acontecera antes). Interrompeu-se a meio do seu discurso, baixou os olhos para não ver a cara desagradavelmente irritada e expectante de Julie, e disse: - Não foi para me zangar consigo que vim aqui. Pelo contrário... - Olhou para ela, verificando se podia continuar. Toda a irritação de Julie desapareceu num instante, e os seus olhos inquietos e suplicantes, numa expectativa ávida, cravaram-se nele. «Posso sempre arranjar maneira de a ver o menos possível - pensou Boris. - Já que comecei, tenho de levar isto até ao fim!» Sentiu-se a corar, ergueu os olhos para ela e disse: - A menina conhece os meus sentimentos por si! - Não era preciso dizer mais: o rosto de Julie já irradiava triunfo e vaidade; porém, obrigou Boris a dizer-lhe tudo o que se diz nestes casos, a dizer-lhe que a amava e que nunca tinha amado ninguém mais do que ela. Julie sabia que, pelas herdades de Penza e pelas florestas de Níjni Nóvgorod tinha o direito de lho exigir, e recebeu o que exigia.{ Lev Tolstói (2005) Guerra e Paz. Livro II. trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Editorial Presença, 361-363. }