stark major

20.8.05

 

ontem, às 22:00


com o meu actual estado de espírito urbano-depressivo, resolvi ontem à noite assistir ao primeiro filme realizado por Michael Bay sem a mãozinha de Jerry Bruckheimer. entrei na sala numa espécie de tira-teimas: seria, afinal, Bay um génio afastado do seu caminho pelo espectáculo (leia-se «financiamento») de Bruckheimer? ter no curriculum vitae pessegadas como Armageddon ou The Rock deveria ser garantia de despedimento sumário, mas confesso que o par de protagonistas me inspirou alguma confiança.

primeiro as boas notícias. basta este filme para eliminar quaisquer dúvidas: Michael Bay tem mesmo o toque de Midas. as más notícias? The Island não é assim tão mau. é pior ainda.

o melhor que poderemos dizer deste desperdício de película é que, nos primeiros quarenta minutos, aguenta-se mais ou menos bem. claro que a premissa que sustenta o filme é um decalque de Never Let Me Go, o último romance de Kazuo Ishiguro, ao qual se junta o ambiente concentracionário e anestesiado de Aldous Huxley (Brave New World) e uns pozinhos de Philip K. Dick (The Simulacra). mas dizer que a primeira parte, ainda que coxa, é interessante não é necessariamente um elogio; afinal, comprei um bilhete para ver um único filme, mas não duas metades. ou seja, Bay atira ao lixo todas as implicações bio-éticas da história para, na segunda parte, se transformar num realizador com o cio: perseguições infindáveis, movimentos de câmara histéricos, muitas quedas e explosões para disfarçar a evidente falta de ideias. claro que, tecnicamente, é tudo muito bem conseguido; pena que, enquanto metia prego a fundo na acção, Bay se tenha esquecido da trama ao quilómetro quarenta e cinco. ainda assim, no intervalo das explosões, podemos deliciar-nos com os diálogos calibrados a gás hilariante. palmas, pois, para McGregor e Johansson, que conseguem soletrar a prosa «bayana» sem esboçar um único sorriso («There is an island: it's us», dita por Jordan Two Delta no intervalo do momento sexual típico de obras deste género, merece o prémio de frase pirosa do filme). concluindo - e porque muito haveria para escrever sobre uma obra deste calibre: de boas intenções está o inferno dos maus filmes cheio. The Island não é um filme: é um erro com a duração de 140 minutos.

Comentários:
Esqueceste-te de salientar que a primeira parte foi grandemente inspirada no filme "Logan's Run" (de 1976), com o Michael York. A diferença entre ambos são quase trinta anos (cerca de três gerações de espectadores em idade de compreenderem o filme). O cinema está cheio de 'remakes' e adaptações de filmes passados, um pouco à semelhança da Moda e de outras tendências cíclicas. A cada geração corresponde também uma reconstrução do passado e "A Ilha" será o "Logan's Run" dos miúdos que têm agora dez anos.
Seriam as explosões e as perseguições melhor aceites há trinta anos? Fazem parte de um estilo de cinema que envolve acção e aparato físico, que prima mais pelo brilhantismo técnico do que pela carga filosófica que naturalmente não tem. E embora isso choque as mentes mais sedentas da profundidade cénica da corrente europeia, por exemplo, por outro lado encontra um vasto público de adeptos que representam lucros para os estúdios de cinema. Há crítica que combata isso? Não. O Michael Bay é um realizador que, dentro do seu estilo, é um artista. Se formos assistir aos seus filmes à espera de um enredo de qualidade e virtuosismo dos actores, vamos desiludir-nos.
E, no entanto, é o público que faz os realizadores do seu tempo. Dentro de trinta anos será recordado em documentários que o enaltecerão e aos seus filmes. Devo confessar que até gostei d'"A Ilha", talvez mais pelo Ewan McGregor do que pela história. E está 'acima' (tanto quanto possível) do "Pearl Harbor" e do "Armageddon".
 
Mindful,

tou um pouquito cansado (cheguei agora de um dia estoirante) e é por isso que vou tentar responder-te, por pontos mais ou menos sequenciais:

a) a questão da influência e da citação, da forma como as narrativas se influenciam e intercruzam entre si seria uma (primeira) longa discussão. há quem diga que temos um punhado de histórias primordiais e que qualquer intriga seja uma mera variação dessas fórmulas. ou seja, a originalidade é um mito, sendo tudo cópia ou reformulação de modelos pré-existentes. no meu post, só referi obras literárias apenas por defeito (é essa a minha formação e o meu trabalho). The Island (e qualquer narrativa, seja qual o suporte apresentado) convocam, por aproximação ou por distanciamento, múltiplas referências (implicita ou explicitamente). ainda assim, mencionar a obra de Kazuo Ishiguro é obrigatório: foi editada no final do ano passado, tendo precisamente a mesma premissa-base. que fique, contudo, claro que essa citação não é, em si, necessariamente má - é apenas um facto. mas é revelador (e, tendo um ponto de comparação tão óbvio como esse livro, deixa as costuras do filme todas à vista) que, com uma premissa tão rica, o realizador deixe, por um lado, tantos buracos no argumento, por outro, tantas questões por desenvolver. já agora, as soluções narrativas apresentadas são, no mínimo, indigentes (não quero revelar muita coisa para quem não viu, mas poderei mencioná-las mais tarde ou em privado).

b) a questão da tradição cinematográfica europeia e americana dava pano para mangas, mas não quero ir por aí. porquê? porque, ao contrário do que me pareceu ler no teu comentário (e não quero crer que assim seja) denegrir um filme do Michael Bay não é sinónimo de apoiar uma forma de filmar (europeia) em detrimento da outra (americana). esse é o argumento fácil utilizado contra qualquer crítico de um filme dito mainstream. qualquer género cinematográfico não é essencialmente mau; logo, existe bom cinema filosófico (para recuperar a tua expressão) como existe bom cinema de acção ou de qualquer outro género. a título de exemplo - e poderia citar tantos - Speed é um filme brilhante sobre todos os pontos. e dificilmente encontrarei ali qualquer especulação filosófica ou algo muito mais profundo. a «profundidade» e a «superficialidade» de um filme NÃO são, creio, critérios de avaliação seja do que for.

c) se o Michael Bay é, para ti, um artista, óptimo. para mim, não vale um chavo. tem um argumento mais do que competente entre mãos e limita-se a queimar pólvora durante mais de metade do filme. ainda por cima, desperdiça um casting brilhante (a começar no McGregor e a terminar no Steve Buscemi). mas eu não estou aqui para ditar gostos de ninguém (e esta questão de gostos é tão complicada... há coisas de que não gosto à primeira e gosto mais tarde.)

d) cito-te: «Dentro de trinta anos será recordado em documentários que o enaltecerão e aos seus filmes.» e termino com esta ideia: não te arrogues o papel de redactor da História. são os Homens que a escrevem, mas é o Tempo que a dita. e o Tempo nem sempre é tão justo ou tão previsível como aparenta. melhor ainda: não é.

e) aparece por aqui. é um prazer (grande, mesmo grande) discutir contigo. :o)
 
já agora, Mindful: Never Let Me Go, a obra de Kazuo Ishiguro que menciono, foi editada há alguns dias em Portugal, pela Gradiva, com o título Nunca Me Deixes. encontra-se à venda na FNAC ou em qualquer livraria (e é, mais do que recomendável, obrigatória).
 
Se, quando cansado, consegues produzir um texto assim, então serás brilhante quando revitalizado :)
No entanto, embora pese aqui a tua formação literária (confesso-me fora de jogo nesse aspecto), a tua opinião é mais do que o sub-produto esperado de uma crítica a esse nível. Está imbuída, à priori, de um desconforto à volta da categoria cinematográfica (boa ou má) do Michael Bay. Atenta no seguinte, que extraí da ficha técnica do filme "The Island":

Writing credits:
Caspian Tredwell-Owen (story)
Caspian Tredwell-Owen (screenplay) and
Alex Kurtzman (screenplay) &
Roberto Orci (screenplay)

Posto isto, e atendendo ao facto de o realizador estar limitado ao argumento, parece-me que os senhores Caspian Tredwell-Owen, Alex Kurtzman e Roberto Orci terão maior responsabilidade pelo suposto "erro com duração de 140 minutos". Naturalmente, o realizador não é alheio ao resultado final, mas se o argumento contemplava cenas de acção com explosões e perseguições, filmou-as com o mesmo sentido de missão que imprimiu às restantes cenas do filme. Talvez não tivesse "um argumento mais do que competente entre mãos", então.
A profundidade de uma obra literária perde sempre quando transposta para cinema. Mais perderá quando baseada noutras obras já existentes, algumas até já filmadas. Ou seja, não pode chamar a si nem a originalidade do conceito (história) nem a primazia da concretização tanto em livro como em filme, que os críticos gostam e costumam aplaudir.
Mas vamos aos factos - que percentagem do público tem conhecimento suficiente para efectuar uma crítica elaborada do filme, recorrendo a referências literárias e cinematográficas? Que percentagem está sequer preocupada em fazê-lo? Um número certamente reduzido e que foi contabilizado pelo produtor quando avançou com o projecto. Os filmes têm públicos-alvo. Este filme não é para o público que leu o "Never Let Me Go". Mas já é para o público que recorda o "Logan's Run", é para as crianças, é para a massa de americanos acéfalos que engolem qualquer patacoada.
Por último, não arrogo o papel de redactor da História. Mas vejo o Discovery Channel e o Odisseia, o Canal de História e outros canais do género e estão cheios de documentários que enaltecem pessoas com um percurso bem pior que o do Michael Bay, que, não me desperta nem amor nem ódio. Acho-o um artista, enquanto realizador, mas não lhe atribuo louros por qualquer outra tarefa relacionada com a criação de filmes.
;)
 
Mindful,

bem-vindo aos comentários em tempo real. ;o) (sim, ainda estou por aqui, mais morto que vivo.) vamos ver se consigo responder-te de forma decente. vou organizar novamente tudo direitinho para ver se o meu cansaço consegue dizer alguma coisa de modo mais ou menos claro.

a) cada um de nós convoca, na nossa leitura de determinada narrativa (novamente, seja qual for o seu suporte), experiências e conhecimentos prévios. deixei clara a minha (de)formação literária, mas todos nós estamos, de uma forma ou de outra, (de)formados de formas diversas. o cinema é uma das minhas (muitas) paixões, e congratulo-me de conhecer um pouquinho mais do que o que passa nas salas de cinema da Lusomundo. quer isto dizer o quê? que não faço parte do público-alvo que o Michael Bay imaginou quando fez este filme? quem faz, então? ou o facto de exigir um pouco mais de um filme (sublinho: não falo de «demandas filosóficas» ou «profundidade psicológica») invalida automaticamente qualquer opinião que possa ter sobre um filme dirigido «às massas» (seja lá o que isso for)?

b) não concordo contigo: os realizadores não estão «limitados» ao argumento, pelo contrário. aliás, permite-me aqui o imperativo, mas esquece essa ideia determinista de que um «bom» argumento faz um «bom» filme e um «mau» argumento um «mau» filme. Vertigo, de Hitchcock tem vários buracos no argumento que o poderiam deitar por terra. e, contudo, sobrevive. (nota: não estou a comparar Hitchcock com Bay.) e nem vou explorar a questão em relação à literatura, que deixo mesmo pendurada; é muito mais complicada do que isso. digo apenas que faz muito pouco sentido falar na (in)fidelidade da adaptação de um livro a cinema, pelo simples facto de estarmos a contrapor linguagens e meios absolutamente distintos. (mas consigo pensar em «bons» livros que deram origem a «maus» filmes, e também no seu contrário). repito: «profundidade» e «superficialidade» (pelos menos nos termos em que os utilizas) não constituem quaisquer critérios de apreciação seja do que for.

d) falar nos «críticos que gostam e costumam aplaudir» é falar de uma coisa que não existe. acabemos de vez com esse mito dos «críticos que odeiam Hollywood e veneram o cinema francês» e vice-versa. there is no such thing. é apenas uma forma de arrumar muito bem arrumadinhos, num canto da sala, os «criticos» como vozes intelectuais e incómodas. hom'essa, «críticos» somos todos nós. críticos somos nós dois, nesta janelinha de comentários. temos uma leitura tão válida quanto a do crítico, e a do crítico é tão válida quanto a nossa. that's that.

e) cito-te: «[este filme] é para a massa de americanos acéfalos que engolem qualquer patacoada.» passe o anti-americanismo primário (mais uma vez, é fácil arrumar tudo muito arrumadinho com «os americanos» ou «os portugueses»), depreendo que, para ti, The Island é, afinal, uma «patacoada»?

f) desculpa, mas ver o Canal História e o Discovery é uma forma muito pobre de conhecer a História. na área que domino, já apanhei com erros de palmatória e alguns monumentais (nomeadamente num programa do História sobre a Batalha de Hastings). lanço-te um desafio: dá uma olhadela nos best-sellers do século XIX. na Europa ou apenas em Portugal. talvez apanhes uma surpresa, e a surpresa chama-se «nunca ouvi falar neles nem sequer são mencionados nas Histórias da Literatura». again: nós escrevemos a História, o Tempo dita-a.

tenho a sensação que isto ficou tudo muito confuso, mas assim fica. qualquer coisa, Mindful, comenta ou usa o mail lá em cima que a girênsia agradece. ;o)
 
Vou responder de forma desordenada:

f) "desculpa, mas ver o Canal História e o Discovery é uma forma muito pobre de conhecer a História."

Certo. Vejo-os por entretenimento. É a "[h]istória" para o povo, aquele de rabo sedentário sentado no sofá. O dos serões fúteis, das férias mal aproveitadas. My fault. Mas alguns documentários têm qualidade. E o rigor histórico será tanto maior quanto maior o grau de exigência do público. Não me parece que alguém se vá queixar de incongruências que não nota. De qualquer forma, não me referia à História sobre a sua forma mais pura [aquela que nem existe por falta de consenso dos historiadores]. Referia-me à "história" que passa para o público. Sim, o público, onde são feitas e desfeitas as lendas. Os interessados pelo rigor histórico não precisam do Canal de História; sabem bem onde obter informação do nível que desejam. Logo, falo da "história" do Canal Hollywood, falo do que se comenta à boca cheia nos cafés, falo do que fica a valer para o povo. Falo do Michael Bay que as TV's constroem e que o público sem opinião engole. Falo do Michael Bay que as crianças de dez anos se vão lembrar daqui a vinte.
Não sei o que foi a Batalha de Hastings.

e) "... passe o anti-americanismo primário... depreendo que, para ti, The Island é, afinal, uma «patacoada»?"

Não sou anti-americano. Aliás, gosto muito dos americanos, mas não vou fazer a sua apologia. No entanto (e verificarás pelo contexto), estava a referir-me ao público-alvo do filme, que estará sempre, primeiramente, no mercado americano. Os produtores sabem bem que ao lucro obtido no estrangeiro se soma o lucro do mercado interno, maioritariamente constituído por indivíduos que não primam pelo sentido crítico.
"The Island" não é uma patacoada. Mas como disse, se aquele público engole qualquer patacoada, então também engole este filme. Era o sentido da frase.

d) "falar nos «críticos que gostam e costumam aplaudir» é falar de uma coisa que não existe."

Então hás-de dizer-me quem são aquelas pessoas que escrevem para os jornais e comentam na televisão. Pessoalmente, nunca os levo a sério, mas eles estão lá. E sabe-se que uma crítica negativa pode demover um potencial espectador. Põe-te no lugar de um produtor e verás se eles não terão algum peso, ainda que pequeno.

b) "não concordo contigo: os realizadores não estão «limitados» ao argumento"

Eu não disse que estavam. Mas o que fazer quando metade do argumento diz "explode", "foge", "corre", "grita", "salta", "rebenta"?

a) "congratulo-me de conhecer um pouquinho mais do que o que passa nas salas de cinema da Lusomundo"

Eu também. Conheço o que se passa nas salas de cinema da UCI :P E por vezes nas do Quarteto, King e Saldanha.

E como tenho a sensação que não vamos concordar (e ainda bem!), I rest my case :)
 
Mindful,

também me parece que não iremos concordar, por uma razão (e peço-te que olhes para aquilo que escreveste sobre H/história e cinema no teu comentário anterior). não vejo o mundo de forma tão dicotomizada, como se existisse um cinema/história para o povo de rabo sentado no sofá e outro para quem pensa, ou do «que fica a valer para o povo» (depreendo que o que valha para as elites seja outra coisa, então). além disso, dizes «Não me parece que alguém se vá queixar de incongruências que não nota. » claro que não se queixam; o problema é depois debitarem disparates com a cara mais compenetrada e séria do mundo. serve isto para dizer: sim, preocupo-me com o rigor das coisas. as generalidades e as generalizações são perigosas e são gasolina para atear discussões.

quanto aos críticos. esta seria uma longa discussão - e infrutífera, porque toda a gente acha que os «críticos» são uma raça aparte. dizer que uma crítica negativa «pode» demover um potencial espectador não é o mesmo que dizer que, de facto, o faz; se assim fosse, não havia blockbusters de verão e os êxitos de bilheteira não seriam os mesmos. mas os críticos são espectadores como nós, com os mesmos preconceitos e opiniões. a diferença é que o fazem num jornal. além disso, a ideia de que a crítica influencia a afluência às salas é falaciosa. não vejo forma de provar uma relação causa-efeito entre as coisas. (mas, just for the sake of argument, esqueceste-te ainda da imensa minoria de filmes que são bem sucedidos pelo boca-a-boca dos espectadores. se um crítico pode fazer o sucesso de um filme, o público também. aliás, é o público que o faz.)

para concluir, e em resposta à tua questão «Mas o que fazer quando metade do argumento diz "explode", "foge", "corre", "grita", "salta", "rebenta"?», digo em tom de brincadeira: «explode», «foge», «corre», «grita», «salta», «rebenta» em estilo e com o mínimo de respeito pela inteligência do espectador (aquela queda dos protagonistas do prédio foi tão inverosímil que nem sequer o gag do operário da construção civil dizer repetidamente «Jesus really loves you» a salvou). yeap, The Island é, quanto a mim, mau mesmo. e nem sequer é daqueles «tão-maus-que-são-bons», dos quais sou fã acérrimo. este ia direitinho para a prisão, sem passar pela casa Partida e sem receber os dois contos. :oP

(oh, boy. isto é que foi discussão, pá. e ainda estou com o cérebro meio-atrofiado devido a um sábado conturbado.)
 
Concordo. Concordo. Concordo.
Mas já não estamos a discutir o essencial, estamos a complementar os pormenores com mais variações sobre o mesmo tema, mantendo-se em pano de fundo a premissa de que eu gostei do filme e tu não. Não me tenho como a pessoa primária que subrepticiamente transparece dos teus comentários, mas partilho de muitas das característas da massa a que podemos chamar povo. Naturalmente, também não vejo a realidade de forma tão dicotómca - aliás, está cheia de níveis de cinzento. Mas prefiro expressar a minha opinião de forma concisa, o que vai realçar determinado aspecto em detrimento de outro. Isso não significa que o meu raciocínio se feche ao resto da realidade; apenas resume num fôlego as linhas gerais do que penso acerca do tema. Os estereótipos, cujo uso é desencorajado por ser a estrutura mental patente nos promotores do ódio, nem sempre resulta da ignorância e pequenez dos que os criam. São simples modelos, despojados de sentido crítico e que aglutinam comportamentos padrão observáveis nos indivíduos. E a sua utilidade é a de simplificar o tratamento desses grupos sem necessitarmos de recorrer à ficha individual de cada um dos seus elementos. É claro, para mim, que a margem de erro associada a um estereótipo é de uma ordem de grandeza abismal, o que suscita sempre arrepios em alguém cuja formação base é na área científica. Mas a bem da minha sanidade mental [ou pelo menos da sanidade mental que desejo manter numa caixa de texto num blog algures], parece-me útil despojar da miríade de meios-termos e, ainda que fundamentando, tecer as considerações mais simplistas possíveis, atendendo a que podem suscitar celeuma. E causaram. Os "críticos", o "povo", os "americanos", os "produtores", etc, não são mais que estereótipos que, dentro do contexto daquilo que afirmo, servem o propósito de representar os comportamentos dominantes dos grupos a que correspondem. Enquanto eu procuro reduzir o discurso, tu procuras desconstruir cada ideia e comentá-la nas suas diferentes vertentes. O que, a meu ver, perde grandemente por não conheceres mais aprofundadamente o que penso.
Estamos a jogar ao nível do discurso, e nesse campo levas-me vantagem. Deparo comigo a ler-te e a perguntar-me se de facto será possível discutir todos os assuntos que levantas, sem ter uma síncope. E acredita que às 4:00 a.m. o meu cérebro não está no auge [nem às 4:00 p.m., for what matters].
:)
 
Mindful,

e ainda bem que consigamos concordar em discordar! :o) aliás, concordo, na generalidade, com tudo o que escreveste no teu último comentário. é óbvio que a discussão numa caixa de comentários não pode ser tão aprofundada assim (ainda que, por acaso, nós tenhamos provado o contrário, pá!).

quero apenas deixar uma coisa bastante clara. a propósito de achares que te considero uma «pessoa primária»: talvez tenhas razão ao dizeres que, no campo do discurso, estou mais alerta; aprecio o rigor e as generalizações fazem-me urticária.
e é precisamente por isso que quero sublinhar que não deixei, implicita ou explicitamente, qualquer ideia sobre o que penso acerca de ti. limitei-me a discutir os teus argumentos, mas recuso discutir pessoas ou personalidades. isso é uma falácia e serve apenas (para recuperar uma expressão que utilizei anteriormente)para «lançar gasolina na discussão».

(já agora, relê a discussão. se realmente fosses uma «pessoa primária [seja lá o que isso for] estaríamos a discutir desta forma tão civilizada?)

it's been nice talking to you, Mr Mindful. :o)
 
Ainda não percebi para quê uma tão longa discussão acerca deste "erro". Afinal, o filme não diz nada de novo, exceptuando algumas frases de mau gosto. Será o Michael Bay, afinal, um realizador de culto? Para quem viu o filme não restam dúvidas de que é uma simples colagem de apontamentos que outros (porventura mais brilhantes) terão feito. A mistura entre argumento e acção parece inevitável (hoje) para vender bilhetes. Mas pode argumentar-se que para fazer um filme de acção não é necessário utilizar f.c.. De qulaquer modo resta sempre ver o filme pelo lado estético, mesmo que não tenha percebido onde estavam os maravilhosos dotes da Scarlett.
 
A melhor do filme é mesmo a parte em que Obi-Wan está a mijar as pequenas sondas que tiveram o trabalho de viajar do cérebro até ao aparelho urinário para serem expelidas. É o chamado TAC do futuro. Em "O Impostor" vemos exemplos de tecnologia futura menos ridícula (ninguém viu esse filme?).
 
Acho que agora perdi a vontade de ver o filme. bah! :P
 
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