com o meu actual estado de espírito urbano-depressivo, resolvi ontem à noite assistir ao primeiro filme realizado por Michael Bay sem a mãozinha de Jerry Bruckheimer. entrei na sala numa espécie de tira-teimas: seria, afinal, Bay um génio afastado do seu caminho pelo espectáculo (leia-se «financiamento») de Bruckheimer? ter no
curriculum vitae pessegadas como
Armageddon ou
The Rock deveria ser garantia de despedimento sumário, mas confesso que o par de protagonistas me inspirou alguma confiança.
primeiro as boas notícias. basta este filme para eliminar quaisquer dúvidas: Michael Bay tem mesmo o toque de Midas. as más notícias?
The Island não é assim tão mau. é pior ainda.
o melhor que poderemos dizer deste desperdício de película é que, nos primeiros quarenta minutos, aguenta-se mais ou menos bem. claro que a premissa que sustenta o filme é um decalque de
Never Let Me Go, o último romance de Kazuo Ishiguro, ao qual se junta o ambiente concentracionário e anestesiado de Aldous Huxley (
Brave New World) e uns pozinhos de Philip K. Dick (
The Simulacra). mas dizer que a primeira parte, ainda que coxa, é interessante não é necessariamente um elogio; afinal, comprei um bilhete para ver um único filme, mas não duas metades. ou seja, Bay atira ao lixo todas as implicações bio-éticas da história para, na segunda parte, se transformar num realizador com o cio: perseguições infindáveis, movimentos de câmara histéricos, muitas quedas e explosões para disfarçar a evidente falta de ideias. claro que, tecnicamente, é tudo muito bem conseguido; pena que, enquanto metia prego a fundo na acção, Bay se tenha esquecido da trama ao quilómetro quarenta e cinco. ainda assim, no intervalo das explosões, podemos deliciar-nos com os diálogos calibrados a gás hilariante. palmas, pois, para McGregor e Johansson, que conseguem soletrar a prosa «bayana» sem esboçar um único sorriso («There is an island: it's us», dita por Jordan Two Delta no intervalo do momento sexual típico de obras deste género, merece o prémio de frase pirosa do filme). concluindo - e porque muito haveria para escrever sobre uma obra deste calibre: de boas intenções está o inferno dos maus filmes cheio.
The Island não é um filme: é um erro com a duração de 140 minutos.