li pela primeira vez Henry James há cinco anos. recordo-me que frequentava o terceiro ano da licenciatura quando resolvi agarrar, por mero acaso,
The Portrait of a Lady (1881). estava em época de exames - lembro-me de andar às voltas com o teatro isabelino e os poetas do barroco português - e de ali encontrar uma porta de fuga para o mundo oitocentista que tanto me fascina. resultado? entre amigas feministas que arrasavam Isabel Archer (a personagem central) à conta da decisão que fecha o livro, e colegas machões que arrumavam James muito arrumadinho na prateleira da literatura para mulheres, consegui escapar ileso. da porta de fuga à porta de entrada no mundo jamesiano foi um pulinho: actualmente, conto pelos dedos de uma mão os autores que conseguem sequer igualar a sua técnica narrativa ou as impressões (fortes,
demasiado fortes) que a sua leitura me provoca. isto aplica-se sobretudo aos romances da fase final «
The Old Pretender», pós-1897 (
The Wings of the Dove,
The Ambassadors,
The Golden Bowl, publicados entre 1902 e 1904, são os centros nevrálgicos desse período), nos quais prevalece o exercício psicológico intricadíssimo (muitas vezes, obscuro) sobre qualquer possibilidade de intriga ou narração tradicionais (leia-se, lineares).
The Beast in the Jungle (1903) é um jogo de xadrez com apenas duas peças (não existem personagens secundárias nem figurantes), jogado até ao inesperado xeque-mate que o encerra. é a história de uma espera, da espera de John Marcher pela «
catástrofe» que irá mudar o
sentido da sua vida. e é ainda a história de May Bartram, com quem se encontra casualmente logo nos primeiros instantes e que resolve acompanhá-lo, como espectadora, nessa espera. os diálogos são James elevado à décima potência. parece revelar tudo numa única palavra e manter cada deixa no fio da navalha da linguagem - para, noventa páginas depois e no parágrafo de encerramento, fazer cair todas as peças/palavras nos lugares certos.
mas James não é um escritor arrumadinho - não para mim. lê-lo implica sempre desarrumar um pouco do meu universo para voltar a colocar tudo em sítios diferentes. com
The Beast in the Jungle, não aprendi nada (não). contudo, aquilo que vi, com uma nitidez tornada mais arrepiante enquanto escrevo estas linhas, foi premonitório. passar pela vida sem decidir, olhá-la por uma única lente são atitudes de quem assume a própria vida como uma sucessão de derrotas contínuas. mas encontrar
a porta da vertigem, aquela porta através da qual sempre olhámos mas nunca, em rigor, observámos - encontrá-la, dizia eu, e nem sequer a abrir é ser-se cadáver no mundo dos vivos.
[post alinhavado há duas semanas e reescrito, na sua totalidade, esta noite. e sim, isto é importante.]