stark major

26.8.05

 

de um e-mail de um leitor nosso

«Caro Nuno Q.,


Não me recordo como cheguei ao seu blog, mas estou certo de o ler desde o início, ou mesmo antes, como se o acender das lâmpadas no primeiro post tivesse despertado uma sensação qualquer de reconhecimento cibernético. [...].

Nunca comentei no seu blog; confesso-me um pouco reservado e tímido nas relações que mantenho com os outros, sobretudo quando têm uma existência meramente virtual. [...]. Contudo, o seu último post deu-me o golpe de asa de que precisava para resolver enviar-lhe esta missiva.

[...].

A propósito, boa ideia a de, há uns tempos, ter finalmente colocado o mail lá em cima, como link do nome. Há coisas que não se escrevem em comentários públicos. [...].

Os nossos gostos literários são aterradoramente comuns, mas a paixão que ambos nutrimos por certo autor é ainda mais estranha. No seu último post, e cumprindo (finalmente!) a promessa feita há muitos posts atrás, debruçou-se sobre esse monstro literário chamado Henry James em termos fascinantes; não me recordo de ter visto essa porta da vertigem na história (aliás, uma expressão fantástica; é da sua lavra ou citou alguém?). Mas achei extraordinário - e é essa a razão que me leva a escrever estas linhas - que não se tenha preocupado em virar o espelho para si.

Procedamos então a esse exercício: pegue no post e releia-o. Não reconhece nada? Previa que não: esse excesso de produtividade bloguística deve ter-lhe toldado a visão e os restantes sentidos. Perceba de uma vez que essas quatro paredes brancas entre as quais passa as horas enfiado a escrever dezenas de posts todas as semanas (nunca entrei em sua casa, mas calculo que nem um posterzito tenha pendurado nessas paredes, home [sic]), não é vida. [...]. Feche os livros, arrume as botas de H. James bem arrumadinhas e desarrume essa vida de uma vez. (Reparou no número de vezes que escreveu «arrumadinho» no referido post? Fora psicólogo e teria muito a dizer relativamente a essa repetição.) Em suma: abra você a porta da vertigem e atire-se. Vai ver que o blog e os seus leitores não se queixam. [...].

[...].

Faça como nas passagens de nível: páre, olhe, escute. E avance. Vai ver que lá fora, no mundo real feito de outra matéria que não 0's e 1's, estará um comboio à sua espera para o levar para longe. Se não estiver, se encontrar a porta da vertigem errada e for trucidado pela locomotiva, levante-se, volte atrás e abra outra porta. Pregue o evangelho jamesiano: seja vivo no mundo dos vivos; de mortos está este mundo cheio. Deixe-se de patetices (perdoe-me a ousadia, mas os posts ambulantes nem deveriam ter saído da sua caixa de rascunhos) e vá viver um pouco. Passe o seu blog das palavras às acções.

Não se preocupe em responder. Aliás, prefiro que não o faça. Tomarei a liberdade de interpretar o seu silêncio como tendo optado por sair desse quarto. Espero ainda não ler nenhum post seu nos próximos tempos; quem tem coragem de enviar um mail dificilmente vacilará em enviar outro. Acredite: estarei atento.


Yours, truly,

Nuno Q.
[endereço de e-mail omitido]»

Comentários:
Escreveste o teu próprio hate mail, instrospectivo, numa lufada catártica que te valeu mais um post.
Eu sei o que custa escrever para aqui quando tudo o resto está desarrumado. O ímpeto da mudança transfigura em gestos vãos todas as acções que não contribuem directamente para ela. Como, por exemplo, ter um blog e escrever para meia dúzia de pessoas, quase diariamente, mesmo que a vontade e o assunto não sejam muitos.
Ainda que apanhes o tal comboio podes continuar a blogar. A sede dos posts não tem que ser dentro das quatro paredes brancas em que habitualmente os escreves. Sentado no comboio com um laptop, enquanto esperas, podes igualmente transmitir posts à [*vómito*] blogosfera.
Mas, claro, talvez esteja a interpretar-te demasiado literalmente, acrescentando uma certa projecção pessoal dos meus medos. Talvez o post seja uma daquelas armadilhas em que cada um vê o que quer e o autor pode sempre defender-se atrás da interpretação (N-1). Eu digo que estás deprimido, tu avanças com um alter ego.
 
Passei por cá para dar uma vista de olhos, e fiquei surpreendido por pôres um link ao meu umilde blog, obrigado.
Queria dizer que gostei da secção “a ouvir”, torna as coisas mais simples, há albums que apetece mostrar ao mundo com medo que sejamos só nós a ouvir, assimtorna esse processo mais simples.
Nunca escrevi um hate-mail para mim mesmo, resolvo as coisas limpando o meu quarto exaustivamente, ordenado os livros por ordem alfabética e as canetas por côres, mas um dia vou esperimentar a tua técnica.

Music of the comment Imogen Heap- “Hide and Seek”
 
Nuno, espero que essa ausência não seja tão prolongada como me parece que vai ser. Lia-te todos os dias e de repente desapareces com um post tão estapafúrdio. Que se passa, afinal? Já to disse e repito: tens-me como leitor muito fiel e custa-me um pouco, depois de tanto tempo fora da blogosfera, deixar de ler as tuas coisas.
Acho que o Mindful tem alguma razão naquilo que diz: alter ego é muito pouco; isto soa mais a uma depressãozita ou coisa que o valha. Até pode ser só uma fase, mas tu é que sabes. Apanha o comboio e regressa ao mundo bloguístico. Ignora o mail que te enviaram e que decidiste (mal, acho eu) publicar. Se quiseres, responde-lhe em privado; quanto a mim, só tens a ganhar em ficar por cá.
Qualquer coisa, já sabes onde me encontrar (pessoalmente ou no MSN).
André
 
Acabar? Mas ainda a semana passada comecei a ler este blog! Err... Bom, mas se isto é um post para acabar, então acabou em grande estilo!
Já a madonna dizia: There's nothing left to try / There's no place left to hide / There's no greater power / Than the power of good-bye
 
fico confuso quando um post me deixa desconfortável.
 
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