50.
João Carlos não acha graça, diz: merda de pátria, azar ter caído aqui, ninguém nem nada me consola, desastre de ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado da demência do passado, mantido em vida por extremo artifício, tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória. Malta tresmalhada em apatia, em desespero sufocada, resignação desconsolada, cansada de outroras glórias exageradas agora pela memória, desgraçada, fácil de comentar a postas de bacalhau, apostas de totobola, lotaria que anda amanhã à roda, frouxa malta, de genica falta, de energia fraca, molengona fantasia e imaginação que mais não dão senão para contar piadas, inventar anedotas, amargas, alarves, palavreado político, calúnia, vigarice. Embebida em estereofonia para esquecer isto, escuto canção que me faz sentir canto, não quem canta, nem instrumento apto a provocar tremores-de-terra na terra tua e minha, capaz de dar conosco em pataratas, única decente saída desde buraco onde nos afundámos, ou nos deixámos afundar, tu grande Planador acompanhado da pequena Maconhesa que contigo embarca nesta nave de loucos, isolada do mundo e à deriva, cortadas as amarras, os contactos com a «realidade»? A isto chamam país? Mero flatus vocis, mania quase mansa mas que custou já milhares de mortos em África? Não há safa? O exílio no reino? O reino do exílio? Resisto, resistes, gageiro, acima, acima, o que fores tenha gosto de grandeza, seja fogo e luz e lava, vulcão e canto vulcantemente seja e se alce e erga e chegue aos teus máximos mastros, vê se vês terra diferente entre o estrume e os astros e galáxias que, indiferentes, nos fazem, desfazem, contemplam lá do alto das esferas geladas. A pacífica dança do incenso barato arde ao canto do quarto, leva-me a meditar na resplendente matéria, enche-me de veneração pelo poder da imagem, pelo desejo predisposto a tudo ter, tudo ser, apetecente de todos os projectos maiores que nós mesmos, mesmo daqueles destinados ao fracasso, luta pela suprema sobrevivência, libertação da prisão onde nos metemos, prendemos, vigiamos, espiamos, torturamos, desterramos, enterramos, enganamos, matamos. Sem regresso, sem remédio? Olhar vorazmente em frente, a fim de não me suceder como à mulher de Lot. Concordas. Sou signo do Leão, tu touro, ambos de patas postas sobre o peso do solo. Se por vezes voamos é para ver mais longe outro cenário. Este não presta. Isto é poço onde pouco se passa e esse se passa sem ninguém dar por nada. Basta.
«Tempo de gente cortada.»
13-4-74
{ Almeida Faria (1978) Cortes. 3.ª edição. Caminho: 1986, 189-191. }